sexta-feira, 8 de abril de 2011

Bebe o leite e esquece a cor da vaca

Num Bar de Madureira, numa sexta ou segunda-feira qualquer...

- ô Dema, traz duas cerva e quatro copos aquiã?
- Psiuu, ô amigo. Preciso de mais duas cadeiras.
- Calma, grita o garçom insolente, eu sou humano não sou máquina!
Não bastasse o burburinho de conversas alheias, a força do pulmão do garçom, e as músicas geralmente de gosto duvidoso escolhidas pelos clientes naquelas máquinas contraventoras, uma moça da mesa lá de fora tenta se comunicar com um senhor miúdo de toalhinha no ombro escorado no balcão.
- Ei senhor, senhooor, aquele espetinho ali é seu?
- Sim, respondeu o senhor miúdo depois de tomar o último gole de cerveja.
- Tem de quê?
- O quê?
 A moça vai ao seu encontro e o interroga em frente à churrasqueira.
- Que carnes são essas?
- É de vaca e frango.
- Sim, mas quais são as partes desses animais que estão aqui no fogo?
- É pá, xã e sobre coxa.
- ???
- Vou querer essa aqui, mas bem passada.
- A senhora é do sul né?
- Sim, como é que você sabe? Perguntou de boba que é, pois o sotaque não nega suas raízes gauchescas, apesar de a maioria achar que ela era paulista.
- É que a senhora fala errado, comentou o atrevido senhor miúdo de regata branca, toalha no ombro e de papete nos pés.
- O quê? Como assim falo errado?A moça nesse momento demonstrou um sorriso de curiosidade pela resposta.
- É que a senhora falou caRne.(pronúncia Tarcisio Meiristica)
- E como é o certo?
- É carhhhni. (sotaque carioca)
De volta à mesa do bar a moça vai comendo o espetinho e ainda achando graça.Ela não confessou para o senhor miúdo, mas sempre soube que ele não era carioca,caso contrário,por que todos o chamavam de Ceará?
Os modos ligeiros do garçom insolente esbarram na moça que passava.Pedido de desculpas aceito, ele retorna a esfregar freneticamente um pano sobre a mesa,enquanto aconselha o bêbado sentimental ali sentado.
- Bebe o leite, rapaz! Bebe o leite e esquece a cor da vaca.

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